REVIVENDO A VISITA DO PAPA FRANCIS A ÁFRICA UM ANO DEPOIS

Assinala-se, nos dias 04-10 de Setembro de 2020, o primeiro aniversário da visita apostólica de Sua Santidade o Papa Francisco a África. A aclamada viagem dos três “M”: Moçambique, Madagáscar e Maurícias, foi a 31ª Viagem Apostólica do Papa Francisco e a 3ª a África.

Não obstante ter-se concretizado nas cidades de Maputo, Antananarivo e Port Louis, o Papa Francisco estava visitando a África e as suas Ilhas. Por isso, na mensagem-vídeo que enviou dias antes da visita dizia: “Anseio pelo momento de vos encontrar… Assim estendo o convite a todos vós para vos unir à minha oração a fim de que Deus consolide a reconciliação fraterna em Moçambique e na África inteira…”[1].

Curiosamente, três palavras resumiram esta viagem apostólica do Papa Francisco: Paz, Esperança e Reconciliação. De facto, em Moçambique o lema foi: “Esperança, Paz e Reconciliação”, em Madagáscar foi: “Semeador da Paz e da Esperança” e nas Maurícias foi: “Peregrino da Paz”. São três palavras que sintetizam a fome não só destes três países, mas de toda a África e das suas Ilhas. Por isso, o Papa Francisco veio a África como mensageiro da esperança, como ele próprio disse: “A Mensagem cristã deve ser esperança para os povos da África”[2]. “ Vou à África como mensageiro de paz e reconciliação”.[3]

ÁFRICA FAMINTA DE PAZ E DO PÃO

 O Papa Francisco observou, com razão, que: “A África de hoje tem sido comparada àquele homem que desceu de Jerusalém a Jericó e caiu nas mãos dos bandoleiros, que o despiram, espancaram e saíram deixando-o meio morto (cf. Lc 10,30-37). Contra o desespero dos pobres, a frustração dos jovens, o grito de dor dos idosos e dos sofredores, o Evangelho de Jesus Cristo, transmitido e vivido, traduz-se em experiências de esperança, paz, alegria, harmonia, amor e unidade”.[4]

Sim, esta África sofrida, mais do que nunca, precisava deste tipo de visita “O Mensageiro da Esperança” e precisa deste tipo de mensagem que “semeia a esperança”. Durante a sua estadia em solo africano, o Papa Francisco deixou três caminhos para que em África e nas suas Ilhas a esperança de uma verdadeira paz, uma verdadeira reconciliação e um progresso integral dos seus povos se torne realidade:

NÃO À VIOLÊNCIA E SIM À PAZ

 Para o Papa Francisco, tudo se perde com a guerra e tudo se ganha com a paz. Ele disse: “com a guerra muitos homens, mulheres e crianças sofrem por não terem casa onde habitar, alimentação suficiente, escolas onde se instruir, hospitais para tratar a saúde, igrejas onde se reunir para rezar e campos onde empregar as forças de trabalho. Muitos milhares de pessoas são forçadas a deslocar-se à procura de segurança e de meios para sobreviver (…) Não à violência e sim à paz!”.[5]

Por isso, é urgente “a busca da paz duradoura – uma missão que envolve a todos – uma missão que exige um trabalho árduo, constante e sem tréguas” pois, a paz é “como uma flor frágil, que procura desabrochar por entre as pedras da violência[6] . Para Papa Francisco, a paz não é apenas ausência de guerra, mas o empenho incansável – especialmente daqueles que ocupam um cargo de maior responsabilidade – de reconhecer, garantir e reconstruir concretamente a dignidade, tantas vezes esquecida ou ignorada, de irmãos nossos, para que possam sentir-se os protagonistas do destino da própria nação e continente”.[7]

É preciso a coragem de uma cultura da paz. A cultura da paz torna possível a reconciliação. Ora, esta cultura da paz exige “um processo constante, no qual cada nova geração está envolvida”.[8] Por isso, o caminho há-de ser aquele que favoreça a cultura do encontro e dela ficar todo impregnado: reconhecer o outro, estreitar laços e lançar pontes.

Papa Francisco insistiu que para tornar possível a reconciliação é preciso superar os tempos de divisão e violência, de xenofobia e tribalismo. Neste sentido, é necessário assumir o desafio de acolher e proteger os migrantes que chegam à procura de trabalho e à procura de melhores condições de vida para as suas famílias.[9] Defender o encontro ecuménico e inter-religioso  e encontrar formas de promover a colaboração entre todos — cristãos, religiões tradicionais, muçulmanos — por um futuro melhor para a África. Sim, é possível alcançar uma paz estável partindo da convicção de que “a diversidade é bela, quando aceita entrar constantemente num processo de reconciliação até selar uma espécie de pacto cultural que faça surgir uma diversidade reconciliada”.[10]

COMBATER A POBREZA

 África é um continente de contrastes: uma terra rica e com tanta pobreza – “cheia de riquezas naturais e culturais, mas paradoxalmente com uma quantidade enorme da sua população abaixo do nível de pobreza”.[11] O Papa Bento XVI disse uma vez a mesma coisa: “Deus dotou a África de importantes recursos naturais. Vendo a pobreza crónica das suas populações, vítimas de exploração e prevaricações locais e estrangeiras, a consciência humana sente-se chocada com a opulência de alguns grupos”.[12]

Para Papa Francisco o caminho para sair desta pobreza é um maior esforço na luta contra a corrupção que arrasta a população a uma espiral de pobreza da qual é difícil sair. “Encorajo-vos a lutar, vigorosa e decididamente, contra todas as formas endémicas de corrupção e especulação, que aumentam a disparidade social, e a enfrentar as situações de grande precariedade e exclusão que geram sempre condições de pobreza desumana. Daí a necessidade de estabelecer todas as mediações estruturais que possam garantir uma melhor distribuição do rendimento e a promoção integral de todos os habitantes, especialmente dos mais pobres. Tal promoção não se pode limitar a uma mera assistência, mas requer o seu reconhecimento como sujeitos jurídicos chamados a participar plenamente na construção do seu futuro (cf. Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 204-205) ”.[13]

CUIDADO PELA CASA COMUM

África é abençoada, com uma beleza natural estupenda: florestas e rios, vales e montanhas e tantas praias lindas; rica de biodiversidade vegetal e animal. Contudo, esta riqueza, diz o Papa Francisco, está particularmente ameaçada pelo excessivo desflorestamento em proveito de poucos e a sua degradação compromete o futuro do continente e da nossa Casa Comum.[14] “Como sabeis, as florestas ainda existentes estão ameaçadas pelos incêndios, a caça furtiva, o corte desenfreado de madeiras preciosas. A biodiversidade vegetal e animal corre perigo por causa do contrabando e das exportações ilegais” e “as consequências do descalabro ecológico são devastadores”.[15]

Portanto, “Temos um desafio, disse o Papa Francisco, proteger a nossa Casa Comum”[16]. “A defesa da terra é também a defesa da vida, que reclama atenção especial quando se constata uma tendência à pilhagem e espoliação, guiada por uma ânsia de acumular que, em geral, não é cultivada sequer por pessoas que habitam estas terras, nem é motivada pelo bem comum do vosso povo”.[17] Não pode haver verdadeira abordagem ecológica nem uma acção concreta de salvaguarda do meio ambiente sem uma justiça social que garanta o direito ao destino comum dos bens da terra às gerações actuais, mas também às futuras.[18]

Além disso, sabemos que não se pode falar de desenvolvimento integral sem prestar atenção e cuidar da nossa Casa Comum. Não se trata apenas de encontrar os instrumentos para preservar os recursos naturais, mas de procurar “soluções integrais que considerem as interacções dos sistemas naturais entre si e com os sistemas sociais. Porque não há duas crises separadas: uma ambiental e outra social; mas uma única e complexa crise sócio ambiental” (Papa Francisco, Carta enc. Laudato Si’, 139).[19]

UNIDADE DOS TRÊS CAMINHOS

Estes três caminhos são inseparáveis para que a esperança de uma verdadeira paz, reconciliação e progresso integral dos Povos Africanos e os das suas Ilhas se torne realidade. De facto, diz o Papa Francisco, “não podemos perder de vista que,  sem igualdade de oportunidades, as várias formas de agressão e de guerra encontrarão um terreno fértil que, mais cedo ou mais tarde, há-de provocar a explosão. Quando a sociedade abandona na periferia uma parte de si mesma, não há programas políticos, nem forças da ordem ou serviços secretos que possam garantir indefinidamente a tranquilidade”.[20]  Uma cultura de paz implica um desenvolvimento produtivo, sustentável e inclusivo, onde cada um possa sentir que este país/continente é seu, e no qual possa estabelecer relações de fraternidade e equidade com o seu vizinho e com tudo o que o rodeia.[21]

Por isso mesmo, conclui o Papa, gostaria de vos animar no desenvolvimento duma política económica orientada para as pessoas, que seja capaz de favorecer uma melhor distribuição das entradas, a criação de oportunidades de trabalho e a promoção integral dos mais pobres (cf. Evangelii gaudium, 204). Trata-se de prosseguir com aquela atitude construtiva que impele a incentivar uma conversão ecológica integral. Tal conversão visa não só evitar fenómenos climáticos tremendos ou grandes desastres naturais, mas procura também promover uma mudança nos estilos de vida para que o crescimento económico possa verdadeiramente beneficiar a todos, sem o risco de causar catástrofes ecológicas nem graves crises sociais.[22]

DISPONIBILIDADE DA IGREJA AFRICANA

Nos seus discursos às autoridades políticas, o Papa Francisco, quase sempre terminava dizendo: “Desejo reafirmar a vontade e disponibilidade da Igreja Católica para, num diálogo permanente com os cristãos das outras confissões, com os membros das diferentes religiões e com todos os actores da sociedade civil, contribuir para o advento duma verdadeira fraternidade que promove o desenvolvimento humano integral de modo que ninguém fique excluído”.[23]

E falando aos Pastores, o Papa Francisco sublinhou: «Semeador de paz e de esperança» é o tema escolhido para esta visita, mas nele pode ecoar também a missão que nos foi confiada. De facto, somos semeadores, e aquele que semeia fá-lo na esperança; fá-lo contando com o seu esforço e empenho pessoal, mas sabendo que há muitos factores que têm de concorrer para que a semente germine, cresça, se torne espiga e, por fim, grão abundante”.[24]

Como o Semeador, nós, Bispos, somos chamados a lançar as sementes da fé e da esperança nesta terra. Já não se pode afirmar que a religião deve limitar-se ao âmbito privado e serve apenas para preparar as almas para o céu. Sabemos que Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas “para nosso usufruto” (1Tm 6, 17). Num discurso dirigido aos Bispos de Madagáscar, o Santo Padre perguntou: “Pode um pastor digno deste nome ficar indiferente aos desafios que enfrentam os seus compatriotas de todas as categorias sociais, independentemente da sua pertença religiosa? Pode um pastor segundo o estilo de Jesus ser indiferente às vidas que lhe estão confiadas”?[25]

 CONCLUSÃO

Um ano passa depois da visita do Papa Francisco a África, mas o calor da sua presença e a riqueza da sua mensagem ainda são sentidos por pessoas do bom coração. No entanto, actos brutais de violência continuam a ser testemunhados em diferentes países africanos, incluindo um dos que que o Santo Padre visitou no ano passado (Moçambique).  Na maior parte do Continente e das Ilhas há poucos sinais da co-existência pacífica e de unidade. Há poucos sinais da segurança alimentar e do meio ambiente saudável.

Na sua Carta Pastoral pela ocasião da passagem do primeiro aniversário desta memorável visita, os Bispos de Moçambique afirmaram: “O Santo Padre deixou-nos mensagem de encorajamento, animação e orientação para a nossa conjuntura actual. Esta mensagem exige de nós um forte, continuado e renovado empenho, no sentido da sua concretização”.

Por conseguinte, é de reiterar o apelo do Papa Francisco: todos nós devemos dizer não á violência e sim à paz cona acabar com a pobrezaente ‘ncisco: todos n Padre visitou no ano passado (Mosus’sus came as Saviour and Reedemer of all peop; todos nós devemos nos dar as mãos para acabar com a pobreza e todos nós devemos estar activamente envolvidos no cuidado da nossa casa comum.

Bem-haja Papa Francisco, mensageiro de Esperança, obreiro da Paz e construtor da Reconciliação.

 

Pe. Rafael Simbine Júnior

Coordenador da Comissão da Evangelização do SECAM

[1] PAPA FRANCISCO, Mensagem-vídeo a Moçambique, Vaticano, 30 de Agosto de 2019.

[2] PAPA FRANCISCO, Em encontro com a Delegação da Organização das Igrejas Institucionais Africanas, Vaticano, 03 de Junho 2018.

[3] PAPA FRANCISCO, Mensagem-vídeo ao Quênia e Uganda e uma outra à República Centro-Africana, Vaticano, 23 de Novembro de 2015.

[4] PAPA FRANCISCO, Em encontro com a Delegação da Organização das Igrejas Institucionais Africanas, Vaticano, 03 de Junho 2018.

[5] Papa Francisco, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Maputo, 05.09.2019 – Papa João Paulo II, Discurso de Chegada, Maputo, 16.09.1988, nº 3.

[6] Papa Francisco, Mensagem para o Dia Mundial da Paz, 2019.

[7] Cf. Papa Francisco, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Maputo, 05.09.2019 & Papa Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 59.

[8] Papa Francisco, Exort. ap. Evangelii gaudium, 220.

[9] Cf. PAPA FRANCISCO, Encontro com as Autoridades de Maurício Port Louis – Palácio Presidencial, 9 de setembro de 2019.

[10] PAPA FRANCISCO, Encontro com as Autoridades de Maurício Port Louis – Palácio Presidencial, 9 de setembro de 2019.

[11] PAPA FRANCISCO, Homilia, Zimpeto, Moçambique, 06 de Setembro de 2019

[12] PAPA BENTO XVI, Africae Munus, 79.

[13] PAPA FRANCISCO, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Antananarivo, 07 de Setembro de 2019.

[14] Cf.  Idem.

[15] Cf. Idem.

[16] Papa Francisco, Discurso do no encontro Inter-Religioso com os Jovens , Maputo, 05.09.2019

[17] Papa Francisco, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Maputo, 05.09.2019

[18] Cf. PAPA FRANCISCO, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Antananarivo, 07 de Setembro de 2019.

[19] PAPA FRANCISCO, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Antananarivo, 07 de Setembro de 2019.

[20] Papa Francisco, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Maputo, 05.09.2019 & Papa Francisco, Exort. Ap. Evangelii gaudium, 59.

[21] CF. Papa Francisco, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Maputo, 05.09.2019

[22] PAPA FRANCISCO, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Antananarivo, 07 de Setembro de 2019.

[23] PAPA FRANCISCO, Discurso do no encontro com Autoridades, Corpo Diplomático e Sociedade Civil, Antananarivo e Port Louis, 07 & 09 de Setembro de 2019.

[24] PAPA FRANCISCO, Discurso do Papa Francisco aos Bispos de Madagascar, Antananarivo e Port Louis, 07 de Setembro de 2019.

[25] CF. Idem.

 

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